Vereador atirou para matar, mas caso desapareceu da Justiça: quem protege Eurico Tavares?

Manaus- O discurso de renovação política, inclusão social e combate às injustiças, adotado por Eurico Tavares (PSD) durante sua campanha para a Câmara Municipal de Manaus, contrasta frontalmente com um episódio sombrio de sua vida: uma acusação grave de tentativa de homicídio, sob efeito de drogas, que nunca chegou a gerar um inquérito formal, mesmo com prisão em flagrante e provas contundentes. O caso escancara falhas graves no sistema de justiça criminal do Amazonas.

O CASO ESCONDIDO

Em 2021, ainda antes de assumir o mandato, Eurico, então com 25 anos, foi preso em flagrante por policiais das Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam). O motivo: segundo relato de um funcionário, ele atirou em sua direção durante um passeio de lancha no rio Amazonas, sob o efeito de entorpecentes.

O projétil passou de raspão do ouvido da vítima graças ao grito de uma mulher que o alertou. Após o disparo, o vereador teria dito: “Eu sou doido, eu vou te matar”, e obrigou o funcionário a tirar o uniforme e pular no rio. O homem só escapou após ser resgatado por colegas após pedir socorro por telefone.

EXISTE FOTO, MAS NÃO EXISTE PROCESSO?

Não ouvi:

• Lavratura de auto de prisão em flagrante;
• Registro de inquérito policial (IP);
• Encaminhamento ao Instituto Médico Legal (IML);
• Realização de audiência de custódia;
• Abertura de processo no Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM).

A única evidência oficial do caso é o Boletim de Ocorrência (BO) registrado pela vítima. Todo o restante, que seria obrigação legal conforme o Código de Processo Penal (CPP), foi ignorado ou engavetado.

⚖️ FALHAS GRAVÍSSIMAS NO PROCESSO PENAL

Conforme o artigo 304 do CPP, qualquer prisão em flagrante deve ser registrada imediatamente pela autoridade policial, com direito a exame de corpo de delito e encaminhamento à audiência de custódia em até 24 horas. O fato de isso não ter ocorrido levanta suspeitas de interferência política ou corrupção institucional.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o caso pode configurar prevaricação ou conivência por parte da Polícia Civil, além de possível constrangimento ilegal contra a vítima, que até hoje teme represálias.

QUEM PROTEGEU EURICO TAVARES?

O silêncio das instituições após o episódio revela uma possível rede de proteção política. A ascensão meteórica de Eurico no PSD, partido da base aliada do prefeito de Manaus, e sua relação com grupos empresariais ligados à elite local, podem ter contribuído para o abafamento do caso.

Nos bastidores da política amazonense, a versão é de que interferências de alto escalão impediram que o caso ganhasse corpo. Fontes indicam que houve pressão para que o BO fosse desconsiderado e que a Polícia Civil não formalizasse o flagrante.

‍⚖️ MP-AM E TJ-AM SE OMITIRAM?

Até o momento, o Ministério Público do Amazonas (MP-AM) não se manifestou sobre o caso. Não há denúncia oferecida, muito menos apuração sobre a omissão da Polícia Civil. A ausência de qualquer movimentação no Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) aponta para a completa paralisia institucional diante de um fato gravíssimo.

Se as instituições cumprissem seu papel, Eurico teria sido julgado ainda em 2021 por tentativa de homicídio, ameaça, posse ilegal de arma de fogo e exposição de terceiros a risco de morte.

DISCURSO X REALIDADE

Hoje, Eurico Tavares mantém nas redes sociais uma imagem de “jovem líder”, engajado em causas sociais, preocupado com juventude e comunidades periféricas. No entanto, o caso de 2021 revela uma personalidade agressiva, instável e potencialmente perigosa, incompatível com o cargo público que ocupa.

A SOCIEDADE TEM O DIREITO DE SABER

A população de Manaus e do Amazonas tem o direito de conhecer os antecedentes e a conduta de seus representantes. Quando um caso como esse é abafado, o que se perpetua é a impunidade, o abuso de poder e a normalização da violência institucional.

A pergunta que fica: por que a Justiça não agiu contra Eurico Tavares, mesmo com provas, testemunhas e prisão em flagrante?

A reportagem continuará acompanhando o caso e solicitando, via Lei de Acesso à Informação, os registros completos da prisão, do BO e dos procedimentos (ou sua ausência) realizados pelas autoridades envolvidas.