
Cidade alaga novamente, e estações meteorológicas recém-instaladas demonstram ineficácia enquanto milhões de reais são gastos
Manaus- Após um dia de fortes chuvas que paralisaram ruas, transbordaram igarapés e alagaram dezenas de bairros em Manaus, o discurso da prefeitura sobre “tecnologia a serviço da prevenção” desmoronou junto com a cidade. A recém-inaugurada estação meteorológica em Santa Etelvina, apresentada, não evitou nem minimizou o caos.
A chamada “rede de monitoramento climático” da gestão do prefeito David Almeida, vendida como símbolo de inovação e inteligência urbana, não serviu para nada, segundo moradores e especialistas ouvidos pela reportagem. Sem alertas efetivos, sem evacuações preventivas e sem ações emergenciais coordenadas, Manaus viveu mais uma vez o retrato da desorganização.
“É mais um projeto de fachada. Eles gastam milhões com esses brinquedos tecnológicos e a gente continua com o esgoto voltando pra dentro de casa”, desabafa a comerciante Lúcia Helena, moradora da zona Norte, uma das mais atingidas.


R$ 28 milhões para o CCC, R$ 8 milhões para as estações e nenhum resultado
No evento de inauguração da estação em Santa Etelvina, o vice-prefeito e titular da Seminf, Renato Junior, chegou a afirmar que a tecnologia “salva vidas” e permite “agir antes do problema acontecer”. No entanto, as chuvas intensas de ontem revelaram que não houve nenhum tipo de ação preventiva baseada nas tais informações em tempo real.
A Prefeitura anunciou que o Centro de Cooperação da Cidade (CCC) teria recebido cerca de R$ 28 milhões em investimentos, com R$ 8 milhões destinados exclusivamente às estações meteorológicas – financiadas por convênio com o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. No entanto, não há evidência pública de como esses dados estão sendo usados e nenhum boletim de alerta foi emitido para as áreas de maior risco.
“Estão usando o discurso da mudança climática para desviar o foco da verdadeira falência da infraestrutura urbana de Manaus. Radar nenhum resolve o que a drenagem malfeita e o planejamento urbano criminoso causam todos os anos”, avalia um engenheiro civil que preferiu não se identificar.
População continua refém da enchente – e da propaganda
Apesar de os equipamentos serem modernos, a prefeitura admite que o sistema ainda está em fase de testes, mesmo após a instalação de quatro estações. O superintendente do CCC, Sandro Diz, prometeu que os dados estariam acessíveis ao público “quando todas as estações estiverem em funcionamento”, o que só deve ocorrer no fim do ano.
Enquanto isso, a cidade segue alagando, afundando e adoecendo, sem qualquer preparo real para eventos extremos. A promessa de uma “Manaus inteligente” virou slogan vazio. O que se vê é a repetição de políticas cosméticas, com altos custos e baixo impacto social.
“A gestão David Almeida parece mais preocupada em maquiar a realidade com inaugurações do que em resolver o problema estrutural da cidade. Tecnologia sem ação é só propaganda”, afirma um servidor da Defesa Civil, sob condição de anonimato.

O episódio desta semana escancara o que muitos já suspeitavam: os radares e estações meteorológicas são mais uma peça no teatro de aparência da Prefeitura de Manaus. A cidade continua vulnerável, mal planejada e desassistida e a população paga o preço duplo: pelas enchentes, e pelo dinheiro público desperdiçado.


