
Oito anos após a entrega do Residencial Maria Zeneide, moradores relatam alagamentos provocados pelo esgoto e dificuldades de acesso a transporte, educação e saúde
Alagamentos que chegam ao interior das casas, problemas no funcionamento da estação de tratamento de esgoto e dificuldades de acesso a transporte, educação e saúde. Essas são algumas das situações encontradas pela Defensoria Pública do Amazonas (DPAM) durante visita técnica realizada nesta terça-feira (29/09) ao Residencial Maria Zeneide, em Iranduba. O habitacional, entregue em 2018, possui 330 casas.
Durante a fiscalização, os moradores relataram ainda a ausência de uma escola na região, o que gera dificuldades para as famílias que precisam levar seus filhos para outras áreas em busca de uma unidade escolar.
A comunidade também apontou a insuficiência de linhas de ônibus para atender à demanda de usuários, que precisam se deslocar para a AM-070 para ter acesso ao transporte coletivo.
Para o defensor público e titular da Defensoria Pública de Interesses Coletivos (DPEIC), Carlos Almeida, as situações relatadas pelos moradores expõem um problema visto em outros residenciais entregues na capital e na região metropolitana: a falta de acompanhamento de políticas públicas após a entrega dos habitacionais.
“Apuramos que a estação de tratamento de esgoto nunca chegou a funcionar como deveria. A necessidade da visita da Defensoria com a equipe técnica é importante para verificar de perto o que os moradores enfrentam no dia a dia. A habitabilidade não envolve apenas a entrega do imóvel, mas tudo o que é necessário para que as pessoas vivam bem no espaço, como acesso à saúde, educação e segurança pública”, destacou.
Isolamento dos moradores e a dificuldade de acesso aos serviços
Entregue em fevereiro de 2018, por meio do programa ‘Minha Casa, Minha Vida’, o Residencial Maria Zeneide conta com 330 casas. Apesar de estar dentro do perímetro do município de Iranduba, o habitacional está localizado a quilômetros de distância da sede do município e também da capital amazonense. Diante desse isolamento geográfico, os moradores vivem em um conjunto construído em uma região sem escola, sem unidade de saúde e sem outros serviços básicos.
Uma das moradoras mais recentes do residencial, Letícia Nogueira, 27, se mudou para o local em janeiro deste ano. Em fevereiro, o primeiro transbordamento do esgoto aconteceu, o que voltou a ocorrer nos meses seguintes. Com uma filha pequena de dois anos em casa, a moradora relata que não aguentou esperar mais pelo Poder Público para solucionar a situação.
“Com as chuvas, no início do ano, a situação piorou. Se a gente usasse muito a torneira ou o chuveiro, a casa começava a alagar também. Precisamos gastar R$ 1 mil para a fossa da nossa casa ser consertada e resolver o problema que vinha da estação de tratamento daqui, que nunca funcionou como deveria”, desabafou.
A algumas quadras de distância, em um dos poucos comércios do local, trabalha Leila Ferreira, 52. Há cinco anos, a moradora do residencial relata que precisa limpar a frente do comércio devido ao transbordamento do bueiro. Uma situação que, segundo ela, já causou diversos transtornos.
“Às vezes, nem tem como as pessoas entrarem aqui no comércio, principalmente quando a chuva vem forte. Depois, eu preciso ficar limpando por conta própria os estragos. Eu espero que os órgãos competentes nos ouçam, porque quem está falando aqui é a dona de um estabelecimento que paga contas também. Estamos contando com a Defensoria para ter esse retorno positivo”, ressaltou.
A comerciante ainda acrescenta que precisa utilizar o transporte coletivo, assim como muitos moradores. A parada de ônibus mais próxima do local fica na AM-070, resultando em uma caminhada de mais de 20 minutos de onde mora. O trajeto até a principal envolve calçadas e meio-fios quebrados, bueiros abertos e outros riscos.
“Há uns anos, chegamos a ter uma linha de ônibus que passava aqui dentro do residencial, mas essa alegria só durou três meses. Nunca nos explicaram por que essa linha foi retirada e, desde então, precisamos ir lá para a principal para conseguir pegar um ônibus que nos leve para os locais que precisamos”, acrescentou.
Os relatos também foram acompanhados pela defensora pública Camila Campos, que atua na unidade da Defensoria em Iranduba. Para ela, o trabalho de levantamento de informações é essencial para determinar quais serão os próximos passos tomados pela Defensoria Pública.
“Estamos colhendo as informações nesse primeiro momento para elaborar quais caminhos vamos precisar fazer para apurar todos os problemas envolvidos com os órgãos responsáveis. Junto à Defensoria de Interesses Coletivos, vamos atuar em conjunto para tentar solucionar da maneira mais rápida possível todas as situações apresentadas e, em breve, realizar uma audiência coletiva com todos os moradores”, pontuou.



