33.4 C
Manaus
segunda-feira, 27 de julho de 2026

Vereador e pré-candidato a deputado estadual Eurico Tavares é acusado de ajudar o tio, acusado de homicídio, a fugir do país em seu avião particular

O empresário Celso Tavares, suspeito de matar um ex-funcionário venezuelano identificado como Jarvis Javier Rodrigues, fugiu do país com auxílio do sobrinho e vereador e Manaus, Eurico Tavares (PSD), que lhe teria sedido o avião que utiliza para sua agenda política pelo estado.

Celso Tavares é alvo de um mandado de prisão, por conta da morte do ex-funcionário, acusado de desviar R$ 400 mil reais de uma empresa de fitas adesivas que pertence ao empresário.

De acordo com informações repassadas pelo delegado Ricardo Cunha, responsável pelas investigações do caso, Celso dirigiu-se até a residência de Jarvis Javier, onde acompanhado de um funcionário de sua confiança, efetuou disparos de arma de fogo após lutar com a vítima.

“Após a ingestão de muita bebida alcoólica, ele teve um surto naquele momento, diz que precisa matar essa pessoa, porque na cabeça dele, essa pessoa supostamente havia desviado 400 mil reais da sua empresa. E aí, nesse momento ele pega sua arma de fogo, um revólver 38, avisa todos os presentes ali que vai matar esse indivíduo e ninguém faz absolutamente nada”, disse o delegado.

Um mandado de prisão contra Celso Tavares foi expedido pela Justiça do Amazonas e no momento em que a Polícia foi cumprir o mandado, descobriram que o suspeito tinha fugido do país se utilizando de uma aeronave de pequeno porte que pertence ao irmão dele e era utilizado pelo sobrinho.

O sobrinho do suspeito é o vereador Eurico Tavares, que usa o avião para percorrer o Amazonas já que lançou sua pré-candidatura a deputado estadual este ano.

O vereador não se pronunciou até o momento sobre o caso, que segue sendo investigado pela Delegacia Especializada em Homicídios e Sequestros (DEHS).

Problemas na justiça

Eurico Tavares é acusado pela ex-namorada, a influenciadora Carla Freitas, de oferecer dinheiro e até mesmo uma loja para que ela abortasse o fruto de um relacionamento que ele teve com o jovem político.

Segundo a influenciadora, ela se relacionava com o Eurico por mais de um ano, quando descobriu que estava grávida. Ao saber da gravidez, Eurico teria oferecido dinheiro e até mesmo construir uma loja para que ela retirasse o filho.

“Eu descobri que estava grávida, falei para ele. Ele me propôs para tirar a criança, já desde o início teve essa reação de tirar, me levou inclusive no Adventista (Hospital) para ver se eu estava grávida, fiz o Beta HCG lá e eu estava grávida. Depois, ele me propôs dar uma loja e, em troca, eu tirava a criança, e eu falei que eu não queria isso”, disse a blogueira em vídeo.

Carla Freitas teria se negado a retirar a criança e passou a se envolver com o também empresário Wendel Said, falecido no dia 29 de agosto deste ano, que acolheu a criança como se fosse sua segundo a blogueira.

“Ele fez o papel de pai, inclusive a minha filha aprendeu a palavra pai com o Wendel. Se tem uma pessoa que eu sou eternamente grata, é a ele”, contou.

Segundo Carla, ela só fez questão de contar o caso agora, porque de acordo com ela, vem recebendo ameaças do vereador eleito e teme pela própria vida, já que para Eurico, o caso pode atrapalhar sua tragetória política.

“Eu temo pela minha vida, pela minha família e pela vida da minha filha. Eu temo muito, temo muito (…) se hoje acontecer alguma coisa comigo, com a minha filha, com pessoas que andam comigo, minha família, vocês não têm dúvida que é o Eurico”, disse.

A influenciadora já fez um Boletim de Ocorrência e agora o caso será investigado pela Delegacia Especializada em Crimes Contra à Mulher (DECCM). Procuramos a assessoria do vereador eleito Eurico Tavares, mas até o fechamento desta matéria, não obtivemos resposta.

Prisão pela Rocam

Em 2021, ainda antes de assumir o mandato, Eurico, então com 25 anos, foi preso em flagrante por policiais das Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam). O motivo: segundo relato de um funcionário, ele atirou em sua direção durante um passeio de lancha no rio Amazonas, sob o efeito de entorpecentes.

O projétil passou de raspão do ouvido da vítima graças ao grito de uma mulher que o alertou. Após o disparo, o vereador teria dito: “Eu sou doido, eu vou te matar”, e obrigou o funcionário a tirar o uniforme e pular no rio. O homem só escapou após ser resgatado por colegas após pedir socorro por telefone.

Existe foto, mas não existe processo?

Não ouve:

• Lavratura de auto de prisão em flagrante;
• Registro de inquérito policial (IP);
• Encaminhamento ao Instituto Médico Legal (IML);
• Realização de audiência de custódia;
• Abertura de processo no Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM).

A única evidência oficial do caso é o Boletim de Ocorrência (BO) registrado pela vítima. Todo o restante, que seria obrigação legal conforme o Código de Processo Penal (CPP), foi ignorado ou engavetado.

Falhas no processo penal

Conforme o artigo 304 do CPP, qualquer prisão em flagrante deve ser registrada imediatamente pela autoridade policial, com direito a exame de corpo de delito e encaminhamento à audiência de custódia em até 24 horas. O fato de isso não ter ocorrido levanta suspeitas de interferência política ou corrupção institucional.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o caso pode configurar prevaricação ou conivência por parte da Polícia Civil, além de possível constrangimento ilegal contra a vítima, que até hoje teme represálias.

Quem protegeu Eurico Tavares?

O silêncio das instituições após o episódio revela uma possível rede de proteção política. A ascensão meteórica de Eurico no PSD, partido da base aliada do prefeito de Manaus, e sua relação com grupos empresariais ligados à elite local, podem ter contribuído para o abafamento do caso.

Nos bastidores da política amazonense, a versão é de que interferências de alto escalão impediram que o caso ganhasse corpo. Fontes indicam que houve pressão para que o BO fosse desconsiderado e que a Polícia Civil não formalizasse o flagrante.

‍MP-AM e TJ-AM se omitiram?

Até o momento, o Ministério Público do Amazonas (MP-AM) não se manifestou sobre o caso. Não há denúncia oferecida, muito menos apuração sobre a omissão da Polícia Civil. A ausência de qualquer movimentação no Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) aponta para a completa paralisia institucional diante de um fato gravíssimo.

Se as instituições cumprissem seu papel, Eurico teria sido julgado ainda em 2021 por tentativa de homicídio, ameaça, posse ilegal de arma de fogo e exposição de terceiros a risco de morte.