32.3 C
Manaus
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Vídeo expõe risco a alunos e escancara abandono das estradas em Iranduba

Um vídeo gravado por pais de alunos de Iranduba e enviado ao líder comunitário Benedito Leite, morador do Novo Paraíso, no km 6, e presidente da Associação dos Moradores e Agricultores Rurais da Comunidade São José II, no km 5, expõe os impactos de uma crise generalizada de infraestrutura no município e reacende cobranças ao prefeito Augusto Ferraz (União Brasil). As imagens mostram um ônibus escolar da rede municipal com um pneu em estado crítico, se desfazendo em plena Estrada do Janauari.

A situação coloca em risco a vida de estudantes da zona rural às vésperas do início do ano letivo, conforme denúncias frequentes de moradores. “A gestão [do prefeito de Iranduba] fala em Educação de excelência. Está muito longe de ser de excelência, né? Principalmente, com os ônibus nessas condições aí. Ônibus precários. Muito complicado mesmo”, disse Leite.

Na filmagem, o pneu aparece com “pedaços arrancados” e um pai alerta para a possibilidade de um iminente acidente. Ele isenta o motorista de qualquer responsabilidade e aponta a omissão do poder público.

“Pneu do ônibus da escola está arrancando os pedaços aqui. O motorista não tem culpa de nada”, afirma. Em outro trecho do vídeo, completa: “Acontece alguma coisa com os alunos, aí os pneus do ônibus tudo arrancando os pedaços aqui, gente. Aí tem que tomar alguma providência sobre isso aqui. Ele [o motorista] é responsável por uma porção de vidas nesse ônibus aqui. Então, tem que dar um jeito aqui nesse pneu”.

Relatos da população comprovam que a denúncia recebida por Benedito Leite não é um problema pontual de manutenção e evidencia falhas graves no transporte escolar e nas vias públicas sob gestão da Prefeitura de Iranduba. Outras lideranças comunitárias reforçam que a situação ameaça a integridade física de crianças e adolescentes, o que leva a responsabilização administrativa em caso de acidentes.

A Estrada do Janauari, que é essencial para o transporte escolar, agricultura e comércio, permanece sem pavimentação, com buracos, lama, poeira e ausência de coleta regular de lixo. Comerciantes lamentam prejuízos e famílias temem pelo deslocamento dos filhos até a escola.

O abandono se estende a outros ramais e distritos. No Ramal do Creuza, moradores afirmam que uma obra de “melhoria” iniciada e abandonada pela prefeitura deixou a via em condições piores. “Bagunçaram a estrada toda, mexeram na terra e não concluíram nada. Nem máquina passaram para tirar a lama”, declarou o comerciante Valdo Guimarães.

Segundo André Peres, presidente da Associação Rural da Comunidade São Francisco, a situação é ainda mais grave diante do anúncio de R$ 7,5 milhões, oriundos do Ministério da Agricultura, para a pavimentação do Ramal do Creuza.

“Nada avançou. Os caminhões pesados de lixo agora passam dentro das comunidades, abrindo crateras, espalhando lixo e levantando poeira. Isso é descaso com recurso público e com a população”, disse.

No distrito do Cacau Pirêra, moradores também criticam problemas frequentes de pavimentação e mobilidade. A crise não se restringe à zona rural. Na zona urbana de Iranduba, ruas esburacadas, trechos sem drenagem adequada e problemas recorrentes de trafegabilidade fazem parte da rotina da população, ampliando a percepção de abandono estrutural tanto no interior quanto na sede do município.

Os impactos atingem serviços essenciais. No Ramal do Castanhal, a lama impede a passagem de veículos, inclusive ambulâncias. No Ramal do Santo Antônio, moradores precisaram tapar buracos e fazer roçagem por conta própria. No Ramal do Caldeirão, parte da estrada desmoronou no dia 9 de janeiro, bloqueando o tráfego e afetando diretamente a renda de famílias que dependem do turismo local.

Prefeitura culpa chuvas

No dia 14 de outubro de 2025, o secretário municipal de Obras, Yago Brandão, atribuiu os atrasos nas obras de infraestrutura nas vias a um “verão atípico” de chuvas e pediu paciência à população. Ele disse que máquinas e materiais estavam nos canteiros. Meses depois, moradores garantem que a realidade nas comunidades, distritos e na zona urbana segue a mesma ou pior, apesar das justificativas oficiais.

Em um vídeo de esclarecimento nas redes sociais da Prefeitura de Iranduba na ocasião, o titular da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Planejamento Urbano (Semplurb) admitiu que as condições climáticas teriam prejudicado serviços de terraplanagem e pavimentação em vias como o Ramal do Creuza, Estrada do Janauari, comunidades de São Sebastião, Umirituba, e Serra Baixa e o distrito do Cacau Pirêra.

No dia 27 de dezembro, o prefeito Augusto Ferraz publicou um vídeo nos canais oficiais anunciando que a pavimentação do Ramal do Creuza iniciou por meio de verba federal enviada pelo senador Omar Aziz (PSD). Mas na postagem, vários moradores de Iranduba cobraram obras em outras vias, como nos ramais Bela Vista, Açutuba e Santo Antônio.

“Bom dia! Três anos de luta, audiências públicas, sessões na Câmara [Municipal de Iranduba], idas na Seinfra (Secretaria de Estado de Infraestrutura), manifestações. Enfim, dois verões atípicos. Essa emenda [do senador Omar Aziz] foi destinada em 2020, mas ainda não finalizou [o Ramal do Creuza] e esperamos que não seja mais uma obra que fique pela metade, assim como aconteceu com Umirituba, Serra Baixa, Cacau e São Sebastião”, relembrou um morador na publicação de Ferraz.

Em nota divulgada neste ano, a Prefeitura de Iranduba informou que atua em parceria com o Governo do Amazonas para solucionar a obstrução da Estrada do Caldeirão. Ainda assim, lideranças comunitárias exigem respostas diretas do prefeito Augusto Ferraz sobre a manutenção das estradas, a segurança do transporte escolar e a destinação efetiva dos recursos anunciados.

Com o início das aulas se aproximando, moradores alertam que o vídeo do ônibus escolar não pode ser tratado como um caso isolado. Para eles, trata-se de uma situação que, se ignorada, pode caracterizar omissão administrativa diante de riscos conhecidos e reiteradamente denunciados.