
A citação do influenciador e jornalista Léo Dias em reportagens da grande imprensa nacional sobre um suposto esquema de contratação de influenciadores para atacar o Banco Central reacendeu questionamentos sobre o uso de recursos públicos em ações de blindagem de imagem por gestores públicos. O caso foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo e aprofundado por colunistas como Malu Gaspar, de O Globo.
Segundo o Estadão, um dos articuladores dos pagamentos a influenciadores seria André Silva Salvador, administrador de empresas vinculadas ao jornalista Léo Dias. Desde dezembro do ano passado, perfis de fofoca e política passaram a receber propostas para levantar suspeitas sobre a decisão do Banco Central de liquidar o Banco Master, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro.
Mensagens obtidas pelo jornal mostram que Salvador abordava influenciadores afirmando atuar em uma “gestão de crise” de um executivo do mercado financeiro, oferecendo “serviços de divulgação”. Nas conversas, ele dizia ter parceria com Thiago Miranda, descrito como “sócio do grupo Léo Dias”. Na prática, Miranda é proprietário da agência Mithi e figura como administrador de empresas ligadas ao jornalista, como a Leo Dias Comunicação e Jornalismo Ltda, conforme registros da Junta Comercial de São Paulo.
Apesar da menção a Miranda, os contratos foram firmados por meio da empresa de Salvador, a UNLTD, sediada em Águas Claras (DF), com capital social declarado de apenas R$ 5 mil. Os acordos incluíam cláusula de confidencialidade do chamado “projeto DV” iniciais associadas a Daniel Vorcaro e previam multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo. De acordo com a jornalista Malu Gaspar, os valores pagos a influenciadores poderiam chegar a até R$ 2 milhões, conforme o alcance dos perfis contratados.
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A estratégia ganhou força após despacho do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), que questionou a liquidação do Banco Master — decisão posteriormente revista. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR), pedindo investigação por possível abuso de autoridade e uso indevido de campanhas digitais para pressionar instituições públicas.
Contratações em Manaus e uso de dinheiro público
É nesse contexto que voltam ao centro do debate as contratações feitas pela Prefeitura de Manaus envolvendo o influenciador Léo Dias. Em duas ocasiões, a gestão do prefeito David Almeida (Avante) utilizou recursos públicos para contratar o jornalista e influenciador com o objetivo de promover ações institucionais e eventos oficiais, como a campanha #SouManaus e o Réveillon 2025.
De acordo com informações divulgadas à época e registros de contratos públicos, os cachês pagos a Léo Dias variaram entre R$ 200 mil e R$ 800 mil, a depender do pacote contratado. Os serviços incluíam stories em redes sociais, postagens patrocinadas, cobertura em seu portal de notícias e divulgação positiva dos eventos, alcançando milhões de seguidores.
Os valores chamaram atenção e foram alvo de críticas de vereadores, comunicadores e representantes da sociedade civil, especialmente por ocorrerem em um cenário de reclamações sobre a qualidade de serviços essenciais na capital, como saúde, transporte público e infraestrutura urbana.
Blindagem política e critérios questionados
Com o nome de Léo Dias agora citado em reportagens que apontam sua ligação indireta com uma suposta rede organizada de influenciadores contratados para defender interesses privados e atacar o Banco Central, cresce a pressão por maior transparência sobre os critérios técnicos, econômicos e éticos adotados pela Prefeitura de Manaus na escolha de fornecedores de comunicação.
Críticos da gestão municipal afirmam que o padrão de contratação revela uma estratégia recorrente de blindagem política e construção de narrativa positiva, em detrimento de uma comunicação institucional estritamente voltada ao interesse público.
Até o momento, nem Léo Dias nem a Prefeitura de Manaus se manifestaram oficialmente sobre os fatos revelados pela imprensa nacional ou sobre os valores pagos nas contratações realizadas pelo Executivo municipal.
O episódio reacende o debate sobre os limites do uso de recursos públicos em ações de marketing político, a responsabilidade na escolha de influenciadores contratados pelo poder público e a necessidade de fiscalização mais rigorosa por parte dos órgãos de controle.


