
A disputa pelas vagas do Amazonas na Câmara dos Deputados começa a ganhar forma antes mesmo do início oficial da campanha eleitoral de 2026.
Durante entrevista ao programa 18 Horas, da Rádio Mix Manaus, ele colocou a crise habitacional no centro do debate político e relacionou o crescimento das ocupações irregulares à pobreza, ao preço dos aluguéis e à falta de políticas públicas contínuas.
Para o ex-secretário, o avanço das ocupações não pode ser analisado apenas como um problema de fiscalização urbana.
Na avaliação dele, milhares de famílias entram em terrenos sem infraestrutura porque não possuem condições financeiras para permanecer no mercado formal de aluguel.
“Por que existem ocupações irregulares? Porque essas famílias que sobrevivem abaixo da linha da pobreza não têm recurso para pagar um aluguel”, afirmou.
Segundo Jesus Alves, os valores cobrados nas áreas periféricas da capital comprometem uma parcela elevada da renda das famílias mais vulneráveis.
“A média de aluguel na periferia de Manaus é de R$ 500 a R$ 600. A gente classifica como aluguel excessivo quando ultrapassa 30% da renda da família”, explicou.
“Estamos falando de famílias que precisam comprometer cerca de 70% ou 80% do que recebem. Então, o que resta para elas é ocupar qualquer canto, qualquer lugar”, acrescentou.
Habitação como bandeira eleitoral
A escolha da habitação como uma das principais pautas da pré-candidatura não ocorre por acaso.
Jesus Alves esteve à frente da Secretaria Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários de Manaus por aproximadamente mil dias.
Durante esse período, participou de ações de regularização fundiária, entrega de títulos definitivos e articulação de unidades habitacionais ligadas ao programa Minha Casa, Minha Vida.
A passagem pela secretaria também ampliou o contato do ex-secretário com moradores de comunidades, famílias instaladas em áreas de risco e pessoas que aguardam atendimento por programas habitacionais.
Esse contato direto com a população de Manaus se tornou um dos principais capitais políticos acumulados por Jesus Alves para a disputa de 2026.
Ao deixar a pasta para se dedicar ao projeto eleitoral, ele passou a apresentar a experiência administrativa como credencial para buscar uma cadeira na Câmara Federal.
A estratégia é politicamente compreensível.
Habitação é uma pauta de forte apelo social, especialmente em uma cidade onde parte da população convive com aluguel elevado, insegurança jurídica sobre a posse dos imóveis e ocupações construídas sem infraestrutura básica.
Ao mesmo tempo, a experiência no Executivo também aumenta a cobrança por resultados, prazos e propostas concretas.
Moradias em áreas de risco preocupam
Durante a entrevista, Jesus Alves chamou atenção para a quantidade de residências construídas em locais vulneráveis a alagamentos, deslizamentos e outros acidentes provocados pelas chuvas.
Segundo ele, Manaus possui aproximadamente 52 mil casas instaladas em áreas de risco.
“Manaus tem hoje cerca de 52 mil casas em áreas de risco. É um número alarmante”, declarou.
“Sempre que chove em Manaus, a gente fica tenso, imaginando que pode haver uma catástrofe ou um deslizamento, como já aconteceu em muitos lugares”, disse.
O número apresentado pelo ex-secretário ajuda a dimensionar o desafio enfrentado pela capital.
Moradias erguidas em encostas, margens de igarapés e terrenos sem drenagem adequada deixam famílias expostas a perdas materiais, desabamentos e mortes.
A ocupação desordenada também amplia a pressão sobre serviços de saneamento, coleta de resíduos, mobilidade, saúde, assistência social e segurança pública.
Para Jesus Alves, sem uma política direcionada às famílias de baixa renda, novas ocupações continuarão surgindo em diferentes pontos da cidade.
“Se não houver uma política aplicada a essas pessoas que precisam, vamos ter problemas de segurança por causa do adensamento populacional, inclusive em locais inapropriados”, afirmou.
Apartamentos encaminhados ainda seriam insuficientes
Jesus Alves também afirmou que deixou aproximadamente 4.700 apartamentos enquadrados e encaminhados quando saiu do comando da secretaria.
Segundo o pré-candidato, as unidades devem ser entregues ao longo de 2026 e 2027.
“Quando saímos da secretaria, deixamos 4.700 apartamentos enquadrados. Esses apartamentos serão entregues ao longo deste ano e do próximo”, declarou.
O ex-secretário, no entanto, reconheceu que o número está longe de resolver o problema habitacional de Manaus.
“Ainda é pouco até mesmo para atender aqueles moradores de áreas de risco. É somente cerca de 10% daquilo que precisa”, avaliou.
A própria comparação apresentada por Jesus Alves demonstra a dimensão da demanda.
Mesmo com a entrega das 4.700 unidades mencionadas, milhares de famílias ainda dependeriam de novos projetos habitacionais, regularização fundiária, aluguel social ou reassentamento.
A solução, portanto, não passa apenas pela construção de apartamentos.
Ela exige planejamento urbano, prevenção de desastres, infraestrutura, transporte, saneamento e integração entre os governos municipal, estadual e federal.
Crítica à descontinuidade entre gestões
Outro ponto levantado pelo ex-secretário foi a interrupção de políticas públicas quando ocorre mudança no comando de governos ou secretarias.
Para Jesus Alves, projetos estruturados por uma administração nem sempre recebem continuidade na gestão seguinte.
“O maior problema que temos com relação às políticas públicas é a descontinuidade”, afirmou.
“Às vezes, você tem um gestor eficiente, que monta um cenário, faz um diagnóstico adequado e aponta os caminhos. Entra um novo gestor e não dá continuidade, simplesmente por vaidade política, por não querer continuar aquilo que o outro fez”, acrescentou.
A declaração ultrapassa a discussão técnica sobre habitação e também carrega uma leitura política.
Ao defender projetos permanentes, Jesus Alves procura apresentar a própria passagem pela secretaria como parte de uma trajetória que poderia continuar em Brasília.
Na Câmara Federal, deputados participam da discussão do Orçamento da União, apresentam emendas e atuam na elaboração de leis que podem impactar programas habitacionais e políticas de prevenção em áreas de risco.
A construção desse discurso permite ao pré-candidato ligar a experiência municipal a uma possível atuação nacional.
Capital político será testado nas urnas
A disputa pelas cadeiras do Amazonas na Câmara dos Deputados deverá reunir parlamentares em busca da reeleição, vereadores, ex-secretários e lideranças com bases consolidadas na capital e no interior.
Nesse cenário, Jesus Alves entra na corrida com o capital político acumulado durante a passagem pela Habitação de Manaus.
As agendas em comunidades, a entrega de títulos e o contato com famílias atendidas ou inscritas em programas ampliaram a presença pública do ex-secretário.
Isso não significa, porém, que a experiência administrativa seja suficiente para garantir competitividade eleitoral.
O desafio será transformar reconhecimento em intenção de voto e apresentar propostas que ultrapassem o diagnóstico já conhecido sobre a falta de moradias.
A pré-candidatura também deverá responder como pretende ampliar o acesso aos recursos federais, acelerar a entrega das unidades anunciadas e reduzir o número de famílias instaladas em locais vulneráveis.
Ao colocar a habitação no centro do debate, Jesus Alves escolhe uma pauta que atinge diretamente milhares de moradores de Manaus.
A crise habitacional envolve pobreza, aluguel elevado, ocupações irregulares, áreas de risco e ausência de infraestrutura.
Também expõe uma realidade que atravessa diferentes administrações e dificilmente será resolvida em apenas um mandato.
É nesse terreno social e político que o ex-secretário pretende construir sua candidatura a deputado federal pelo MDB.








