Hipocrisia de fé: quando os lobos se vestem de cordeiro para enganar os humildes

Por Redação

O deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM), conhecido nacionalmente por sua atuação como líder religioso e figura influente no meio evangélico, enfrenta uma série de denúncias, investigações e decisões judiciais que colocam em xeque sua imagem pública e seu discurso de moralidade cristã.

Em janeiro de 2024, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) decidiu, por maioria de votos (4 a 2), cassar o mandato do deputado Silas Câmara por abuso de poder econômico e captação ilícita de recursos durante a campanha de 2022.

De acordo com o processo, Silas teria contratado aeronaves para realizar trajetos fora do estado, o que viola a legislação eleitoral. Entre as irregularidades apontadas, estão o embarque de passageiros que não eram candidatos, viagens fora da circunscrição eleitoral e despesas incompatíveis com o propósito da campanha.

Apesar da decisão, o deputado conseguiu manter o mandato após o mesmo tribunal absolvê-lo, em novembro de 2025, em outro processo referente aos gastos de campanha. A disputa jurídica segue em aberto, e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ainda deve analisar os recursos.

Outro ponto que chama atenção é a utilização irregular de aeronaves e inconsistências nas prestações de contas de campanha. Silas admitiu que suas contas foram aprovadas “com ressalvas”, mas as investigações apontam possíveis irregularidades na origem dos recursos usados para os fretamentos e na lista de passageiros transportados.

Em novembro de 2025, o nome de Silas Câmara voltou a aparecer no noticiário, desta vez citado no relatório da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, que identificou repasses de cerca de R$ 1,9 milhão para entidades e pessoas ligadas ao deputado e à sua família, provenientes da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA). Entre os beneficiados estariam a Fundação Boas Novas, dirigida por seu irmão, o pastor Jônatas Câmara, além de outros familiares.

Os valores identificados pela CPMI incluem R$ 11 mil repassados à fundação, R$ 37 mil para Heber Tavares Câmara e R$ 9 mil diretamente para a conta do deputado. O relator da comissão afirmou que ainda não emitiu juízo de valor sobre a conduta de Silas, mas a presença de seu nome e de parentes próximos no relatório levanta sérias dúvidas sobre o uso de recursos públicos e a mistura de interesses políticos e religiosos.

As suspeitas contra o parlamentar não param por aí. A Procuradoria-Geral da República (PGR) ofereceu denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF) acusando Silas de usar identidade falsa e documentos irregulares. Segundo a denúncia, ele teria utilizado o nome “Silas Duarte Câmara” em registros de CPF e contratos sociais de empresas, além de supostas falsificações em certidões e registros familiares.

Em 2022, Silas também foi alvo de uma representação na Procuradoria Regional Eleitoral (PRE-AM) após um pastor ser flagrado pedindo votos para ele dentro de uma igreja — o que configura propaganda eleitoral antecipada e fere a legislação vigente.

No campo político, o deputado foi criticado por votar a favor da Reforma Tributária (PLP 68/2024), tornando-se o único parlamentar do Amazonas a apoiar uma proposta que, segundo especialistas e lideranças locais, enfraquece a Zona Franca de Manaus (ZFM) e ameaça a economia regional.

Além das acusações pessoais, o partido Republicanos-AM, presidido por Silas, também entrou na mira da Justiça Eleitoral. Em agosto de 2024, o TSE determinou que o diretório estadual da sigla devolvesse R$ 3,6 milhões ao Fundo Partidário, após identificar irregularidades graves na prestação de contas da legenda.

Apesar do histórico de denúncias e das acusações de abuso de poder, Silas Câmara segue mantendo influência política e religiosa no Amazonas. Sua trajetória mistura púlpito e palanque, fé e poder, transformando o discurso cristão em ferramenta de blindagem diante de sucessivos escândalos.

Enquanto o deputado se apresenta como defensor da moral e da fé, as investigações revelam um cenário de contradições, favorecimentos e suspeitas que expõem o lado obscuro de quem usa o nome de Deus para se proteger de seus próprios atos.