
Por: Elson Santos
Manaus- O combate às fake news se tornou uma pauta urgente no cenário político brasileiro, especialmente diante do impacto da desinformação sobre a democracia, a saúde pública e a segurança nacional. Contudo, a legitimidade desse combate exige coerência — algo que parece estar em falta no caso do deputado federal Sidney Leite (PSD-AM).
Leite foi recentemente condenado pela Justiça por divulgar informações falsas que associavam o Governo do Amazonas ao crime organizado. A decisão determinou a remoção do conteúdo e estipulou multa diária de R$ 5 mil em caso de descumprimento. Trata-se de uma acusação grave: lançar mão de inverdades para atingir adversários políticos é prática incompatível com o espírito republicano e com a ética que deveria nortear o exercício do mandato parlamentar.
A contradição se agrava quando lembramos que o próprio Sidney Leite assinou o requerimento de criação da CPMI das Fake News, em 2019, uma comissão mista do Congresso destinada justamente a investigar a origem e a disseminação de notícias falsas no Brasil. A incoerência salta aos olhos: como pode alguém condenado por desinformar a população atuar como fiscal do que ele próprio promoveu?
Este episódio escancara um problema estrutural: a banalização do discurso contra fake news por parte de políticos que utilizam a pauta como ferramenta de autopromoção, ao mesmo tempo em que reproduzem práticas que minam a confiança pública na informação e nas instituições.
O caso de Sidney Leite exige reflexão sobre os critérios de participação em comissões parlamentares. É aceitável que alguém envolvido na propagação de mentiras esteja entre os que deveriam combatê-las? Se o Parlamento quer ser levado a sério no enfrentamento à desinformação, precisa começar por garantir que seus próprios membros estejam comprometidos, na prática, com a verdade.
O combate à fake news não pode ser seletivo, nem servir de palco para oportunismo político. Do contrário, o que deveria ser uma resposta institucional à crise da verdade acaba se tornando mais uma encenação cínica diante do eleitor.


