
Um dos empresários presos nesta terça-feira (20/5) no Aeroporto Internacional de Brasília, com R$ 1,2 milhão em espécie escondidos em uma mala, mantém contratos milionários com as prefeituras de Manaus e Coari, administradas por David Almeida (Avante) e Adail Filho (Republicanos). O caso, investigado pela Polícia Federal, levanta suspeitas de desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e favorecimento empresarial.
O flagrante da Polícia Federal
Os empresários preso foram identificados como César de Jesus Glória Albuquerque, Erick Pinto Saraiva e Vagner Santos Moitinho. Eles não souberam explicar a origem e o destino do dinheiro. A justificativa apresentada – de que os valores seriam usados para compra de mercadorias em Goiás – caiu por terra diante da ausência de documentos fiscais, notas de fornecedores ou contratos comerciais.
A Polícia Federal investiga a possível ligação do dinheiro com contratos públicos firmados no Amazonas, sobretudo com a Prefeitura de Manaus e a Prefeitura de Coari, cidades frequentemente citadas em denúncias de superfaturamento e fraudes em licitações.

Documentos oficiais acessados com exclusividade pela reportagem mostram que uma das empresas ligadas ao grupo, a COMERCIAL CJ – COMÉRCIO DE PRODUTOS ALIMENTÍCIOS LTDA (CNPJ 31.158.755/0001-42), possui contratos ativos com órgãos da Prefeitura de Manaus.
Entre os contratos em vigor, destaca-se:
• Contrato nº 065/2024, firmado com a Secretaria Municipal de Educação (Semed), no valor de R$ 3.500.441,10, para fornecimento de gêneros alimentícios (leite condensado, biscoitos, macarrão etc.) a unidades escolares da rede pública. O contrato foi assinado em 12 de agosto de 2024 e segue válido até agosto de 2025.
• Contrato nº 013/2025, celebrado com a Fundação de Apoio ao Idoso Dr. Thomas, também ligada à Prefeitura de Manaus, no valor de R$ 28.444,40, para fornecimento de estivas e alimentos.
Ambos os contratos foram firmados sob regime de adesão a atas de registro de preços, prática legal, mas frequentemente usada como atalho para acelerar contratações sem nova concorrência.
Suspeitas de favorecimento e movimentações atípicas
Fontes próximas à investigação apontam que os empresários detidos possuem relações políticas com figuras influentes no interior do Amazonas e, possivelmente, com agentes da gestão municipal de Manaus. A origem dos recursos em espécie apreendidos pode estar vinculada a pagamentos ilícitos, propina ou repasses de contratos superfaturados.
A reportagem apurou ainda que a empresa COMERCIAL CJ tem histórico de participação em licitações com propostas semelhantes a de empresas parceiras ou coligadas — uma prática comum em simulações de concorrência fraudulenta.
O que dizem as prefeituras
Até o momento, nenhuma das prefeituras envolvidas se manifestou oficialmente sobre os contratos com a empresa investigada ou sobre o envolvimento dos empresários presos. A equipe da reportagem entrou em contato com a assessoria da Prefeitura de Manaus e da Prefeitura de Coari, mas não obteve resposta até a publicação.
A Polícia Federal investiga:
• A real origem do dinheiro transportado
• Possíveis crimes de lavagem de dinheiro e corrupção
• Conexões entre os empresários e gestores públicos
• A legalidade dos contratos firmados com recursos federais e municipais
O caso pode se desdobrar em nova fase da Operação Sangria ou em outra força-tarefa contra desvio de verbas da educação e saúde no Amazonas.
O flagrante de R$ 1,2 milhão em espécie, somado aos contratos milionários da empresa envolvida com as gestões de David Almeida e Adail Filho, acende mais um alerta sobre a fragilidade dos controles públicos no estado do Amazonas. Diante da gravidade dos fatos, órgãos como o Ministério Público Federal (MPF), Tribunal de Contas do Estado (TCE-AM) e Controladoria-Geral da União (CGU) devem ser provocados a investigar o caso com rigor.


