David Almeida é alvo de pedido de impeachment por uso indevido de verba do Fundeb são R$ 40 milhões

Por: Redação

Manaus- A gestão do prefeito David Almeida (Avante) está no centro de uma nova crise política e jurídica. Documentos obtidos pela reportagem revelam que a Prefeitura de Manaus utilizou mais de R$ 40 milhões do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) para pagar despesas da Manausmed, o plano de saúde dos servidores públicos municipais — prática proibida por lei federal.

A denúncia foi levada à imprensa pelo vereador Rodrigo Guedes (Progressistas), que anunciou que irá protocolar um pedido de impeachment contra o prefeito nos próximos dias. “Esse é um caso gravíssimo de desvio de finalidade dos recursos da educação. Não se pode tirar dinheiro da sala de aula para pagar plano de saúde”, afirmou Guedes.

A acusação não é isolada. Em fevereiro deste ano, o Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) já havia determinado a suspensão imediata dos repasses do Fundeb ao Fundo de Custeio do Plano de Saúde dos Servidores (Funserv), responsável pela Manausmed. A decisão, assinada pelo conselheiro Érico Desterro, atendeu uma representação do Ministério Público de Contas (MPC), que apurou o caso a partir de dados do próprio Portal da Transparência do município.

“A aplicação de recursos do Fundeb em áreas alheias à educação configura infração legal e pode resultar em sanções administrativas e penais”, alertou o MPC na representação.

Como o esquema foi descoberto

O repasse irregular veio à tona após cruzamento de dados dos balancetes financeiros de 2023 da Secretaria Municipal de Educação (Semed) com os registros da Manausmed, consultados por técnicos do Tribunal de Contas. Ao menos R$ 40 milhões foram transferidos para o Funserv, sem respaldo legal nem transparência pública.

A equipe do vereador Guedes requisitou cópias de empenhos e ordens de pagamento e identificou que os valores foram debitados diretamente do orçamento da educação. “Estamos falando de dinheiro carimbado para a valorização dos professores, manutenção das escolas e melhoria da qualidade do ensino. Esse tipo de uso representa um atentado contra a política educacional”, denunciou o parlamentar.

Segundo a Lei nº 14.113/2020, que regula o novo Fundeb, no mínimo 70% dos recursos devem ser destinados à remuneração de profissionais da educação básica. A legislação veda expressamente o uso dos recursos para custear benefícios médicos ou previdenciários de servidores públicos.

Resistência na Câmara e silêncio da Prefeitura

Apesar da gravidade das acusações, Rodrigo Guedes reconhece que o pedido de impeachment pode enfrentar resistência na Câmara Municipal de Manaus, onde o prefeito conta com apoio de ampla maioria. “Mesmo assim, vou exigir que o plenário vote. O regimento exige que denúncias dessa natureza sejam analisadas pela Casa, e os vereadores terão que se posicionar publicamente”, declarou.

Até o momento, a Prefeitura de Manaus não se pronunciou oficialmente sobre o caso. A reportagem procurou a assessoria de imprensa do Executivo, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Repercussões e riscos legais

Caso as irregularidades sejam confirmadas, a gestão de David Almeida poderá responder por improbidade administrativa, crime de responsabilidade e infrações à Lei de Responsabilidade Fiscal. O TCE-AM pode ainda exigir a devolução integral dos valores ao erário, além da aplicação de multas e inelegibilidade dos envolvidos.

Especialistas em direito público consultados pela reportagem consideram o caso como um exemplo típico de desvio de finalidade no uso de verba vinculada, com potencial de gerar consequências severas tanto no âmbito judicial quanto político.

“A legislação é clara: o Fundeb existe para fortalecer a educação básica. Usá-lo fora dessa finalidade é ilegal, imoral e passível de punição”, afirmou um procurador da área de controle externo que acompanha o caso.