
A política de Manaus vive um dos momentos mais constrangedores de sua história recente. Com 57% de rejeição, o prefeito David Almeida entra oficialmente no seleto grupo de gestores reprovados em massa pela própria população. O índice não é apenas alto: é simbólico de uma gestão que perdeu a narrativa, o respeito popular e a capacidade de entrega.
Em vez de assumir responsabilidades, o prefeito escolheu o caminho mais fácil: o discurso vitimista. Quase toda aparição pública vem acompanhada de histórias pessoais, lembranças de origem humilde e ataques à imprensa e à oposição. A prefeitura deixou de ser um centro de decisões administrativas e virou um palanque emocional permanente, enquanto a cidade afunda em problemas reais.
Manaus é hoje um retrato do abandono. Buracos dominam avenidas, alagações viram rotina em épocas de chuva e o transporte público opera em crise constante. Professores cruzam os braços em greves que expõem o desprezo institucional pela educação pública. Na saúde, a população amarga filas e precariedade, enquanto projetos polêmicos como a chamada “PL da Morte” revoltam servidores e ampliam a sensação de injustiça social.
O quadro político se agrava ainda mais pelas sombras jurídicas que rondam a gestão. Procedimentos e investigações envolvendo o prefeito e membros da administração tramitam no Tribunal de Justiça do Amazonas e no Ministério Público do Amazonas, alimentando um clima de desconfiança generalizada. Mesmo sem decisões definitivas, o estrago político já está feito: a imagem pública de David Almeida é consumida pela suspeita e pela instabilidade.
A comparação com o ex-governador José Melo tornou-se inevitável. A rejeição atual do prefeito já supera, em percepção popular, o desgaste vivido pelo governo Melo no auge das denúncias. O que antes parecia exagero virou realidade: David Almeida consegue ser mais rejeitado do que um governo que terminou em colapso político e judicial.
Diante desse cenário, o projeto pessoal de se tornar governador beira o delírio político. Não há discurso emocional que apague buracos, não há vitimismo que cure hospitais e não há ataque à imprensa que recupere a confiança popular. A cidade clama por gestão, não por narrativa.
Manaus não precisa de um prefeito que culpe o mundo por seus fracassos. Precisa de um líder que enfrente os problemas de frente. Enquanto David Almeida insiste em enxergar inimigos imaginários, a população segue vivendo o inimigo real: uma gestão sem resultados, sem rumo e sem credibilidade.


