
Redação:
Avanço das águas coloca 62 cidades sob monitoramento e escancara desafios crônicos de infraestrutura e prevenção no estado.
Manaus (AM) – A cheia dos rios no Amazonas em 2025 já afeta diretamente mais de 144 mil pessoas, segundo o mais recente boletim divulgado pelo Comitê Permanente de Enfrentamento a Eventos Climáticos e Ambientais. Diante da gravidade da situação, 13 municípios decretaram estado de emergência, e outros 49 estão em alerta ou atenção. A temporada de enchentes volta a expor a vulnerabilidade das populações ribeirinhas e a ineficiência histórica do poder público em implementar soluções duradouras.
Os municípios em situação de emergência são: Atalaia do Norte, Apuí, Benjamin Constant, Boca do Acre, Borba, Eirunepé, Guajará, Humaitá, Ipixuna, Itamarati, Manicoré, Novo Aripuanã e Tonantins. Em muitos desses locais, o acesso está comprometido, escolas foram fechadas, e famílias inteiras precisaram deixar suas casas.
Em Manaus, o nível do Rio Negro alcançou 27,90 metros, aproximando-se da cota de inundação severa. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) já emitiu alertas de que os rios Negro, Solimões e Amazonas podem atingir níveis críticos nas próximas semanas, reforçando o cenário de preocupação.
Ajuda emergencial, mas paliativa
A Defesa Civil do Amazonas ativou a “Operação Cheia 2025” com distribuição de cestas básicas, kits de purificação de água e ações de apoio logístico. Entretanto, lideranças comunitárias denunciam que a ajuda tem chegado de forma lenta e insuficiente para atender às famílias em áreas isoladas.
“A gente vive esse pesadelo todo ano, e o governo só aparece depois que tudo está debaixo d’água. O que a gente precisa é de estrutura, de casas seguras, de planejamento”, desabafa Maria da Silva, moradora do município de Borba.
Cenário recorrente, soluções ausentes
As enchentes no Amazonas não são novidade. O que muda a cada ano é a quantidade de pessoas atingidas – que segue crescendo. Especialistas apontam que a ausência de um plano estadual de adaptação climática e a falta de investimentos em infraestrutura resiliente agravam os impactos. Além disso, o avanço das mudanças climáticas e o desmatamento em larga escala na bacia amazônica contribuem para extremos hidrológicos cada vez mais frequentes e severos.
Algumas localidades no período das cheias:

“O que vemos é uma resposta emergencial recorrente, mas nenhuma ação estruturante. Os ribeirinhos são tratados como números em boletins, não como cidadãos que precisam de dignidade e proteção permanente”, afirma o geógrafo ambiental Adriano Duarte, da UFAM.
A conta que sempre chega aos mesmos
Enquanto o governo estadual promete reforçar as ações de apoio, a realidade nas margens dos rios é de abandono, incerteza e medo. Sem políticas de habitação segura, saneamento básico e transporte alternativo durante os períodos de cheia, os mesmos grupos seguem pagando a conta da negligência pública ano após ano.
A previsão é que o pico da cheia ocorra entre o fim de maio e meados de junho. Até lá, as águas continuarão subindo – e a população, esperando.


