
Documentos de inteligência financeira indicam padrão de transações atípicas após nomeação na estrutura vinculada ao prefeito; caso integra apurações da operação Erga Omnes
Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontam que a assessora municipal Anabela Cardoso Freitas realizou transferências que ultrapassam R$ 1,5 milhão para contas classificadas como empresas de fachada supostamente utilizadas pelo Comando Vermelho (CV) para operacionalização de recursos do tráfico de drogas na região de fronteira do Amazonas.
A assessora foi presa na última sexta-feira (20), durante a operação Erga Omnes, deflagrada pela Polícia Civil do Amazonas, que investiga a infiltração de integrantes de organização criminosa em estruturas do poder público.
Linha do tempo das movimentações
De acordo com os RIFs, as operações financeiras consideradas atípicas passaram a ocorrer após 20 de outubro de 2023, data em que Anabela foi nomeada para função na estrutura de apoio vinculada ao prefeito — conforme publicação no Diário Oficial do Estado nº 35.091.
Na Prefeitura de Manaus, ela exercia atribuições ligadas à agenda oficial do chefe do Executivo. Paralelamente, também integrava a equipe de apoio destinada ao ex-governador — prerrogativa garantida a David Almeida por ter exercido o cargo.
Nomeação

Os relatórios identificam:
• Transferências fracionadas para múltiplas contas;
• Movimentações incompatíveis com a renda declarada;
• Operações direcionadas a empresas recém-constituídas;
• Circularidade de recursos (entrada e saída em curto intervalo de tempo).
Especialistas em compliance financeiro ouvidos pela reportagem avaliam que esse padrão é típico de estratégias de ocultação e dissimulação de origem de recursos, com possível enquadramento nos crimes de lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Empresas sob suspeita
As empresas destinatárias dos valores, segundo os relatórios, não apresentavam estrutura operacional compatível com o volume financeiro recebido. Há indícios de que teriam sido constituídas com o objetivo de servir como canais de passagem para aquisição de entorpecentes na tríplice fronteira.
A investigação busca identificar:
• Quem são os sócios formais e ocultos;
• A origem primária dos recursos transferidos;
• Eventual conexão com contratos públicos;
• Possível participação de outros agentes públicos.
Conexões políticas sob análise
O ponto central da apuração é determinar se houve utilização de posição estratégica dentro da administração municipal para facilitar operações financeiras ou garantir proteção institucional ao grupo criminoso.
Até o momento, não há decisão judicial que indique envolvimento direto do prefeito nas movimentações financeiras descritas nos RIFs. A defesa dos citados ainda não se manifestou publicamente.
Impacto institucional
O caso amplia a crise política na gestão municipal e pode desencadear:
• Abertura de investigação pelo Ministério Público;
• Ações por improbidade administrativa;
• Procedimentos de responsabilização por lavagem de dinheiro;
• Eventual desdobramento na esfera eleitoral.
A Polícia Civil informou que novas fases da operação não estão descartadas, dependendo da análise do material apreendido e da quebra de sigilos bancário e fiscal autorizada judicialmente.
A reportagem segue acompanhando o caso e manterá atualização conforme novos documentos e decisões judiciais forem divulgados.
Fonte: COAF


