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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Augusto Ferraz é a cortina de escândalos e investigações na prefeitura de Iranduba

Desde a reeleição em 2024, a administração municipal passou a figurar em representações no Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), investigações do Ministério Público e reportagens que apontam fragilidades na transparência, possíveis conflitos de interesse e contratações de alto impacto financeiro.

Um dos primeiros episódios após o pleito foi a destinação de R$ 3,4 milhões para aquisição de gêneros alimentícios pela Secretaria Municipal de Educação, por meio do pregão eletrônico nº 015/2024. Parte relevante do montante foi direcionada à empresa M J P Rodrigues cuja atividade principal registrada é o comércio de cosméticos além de outras cinco fornecedoras. O processo não detalhou itens, prazos ou cronograma de entrega, o que gerou questionamentos. Dias depois, mais R$ 1,2 milhão foram adicionados ao mesmo pregão. A homologação ocorreu sem registros de cancelamento ou revisão, e a prefeitura não apresentou esclarecimentos públicos consistentes.

Em 2025, outro contrato chamou atenção: R$ 1,65 milhão para controle de pragas urbanas em unidades escolares, com foco significativo em repelentes para pombos e morcegos. Mais de R$ 1,6 milhão concentram-se nesses dois itens. A contratação foi feita por adesão a ata de registro de preços e firmada com empresa sediada em Manaus. Não houve divulgação de estudo técnico detalhado que justificasse a proporcionalidade dos valores.

Também entrou no radar a recorrente contratação da empresa P J R Serviços de Escritório Administrativo Ltda., vencedora de novo pregão de R$ 1,69 milhão para serviços gráficos, apesar de ter como atividade principal o transporte rodoviário de passageiros. O proprietário é ex-chefe da Comissão de Licitação do município. O contrato atende à Secretaria Municipal de Saúde, atualmente comandada pela esposa do prefeito, circunstância que ampliou o debate sobre governança, segregação de funções e potenciais conflitos de interesse.

No campo institucional, a 2ª Promotoria de Justiça de Iranduba instaurou inquérito civil para apurar a qualidade e segurança do transporte escolar, abrangendo veículos terrestres e embarcações. Foram solicitados contratos, registros de manutenção, documentação de condutores e certificações náuticas. O procedimento segue sob sigilo.

O TCE-AM também analisa uma dívida de R$ 14,4 milhões com a concessionária de energia elétrica, acumulada desde 2005, incluindo juros e multas. Segundo registros processuais, os esclarecimentos enviados pela prefeitura foram considerados insuficientes. Em outro processo, o tribunal apontou falhas estruturais na política municipal de prevenção a desastres naturais e determinou a reformulação do plano de contingência, ainda sem confirmação pública de cumprimento integral.

Há ainda denúncia de improbidade administrativa sob análise no TCE-AM, envolvendo suposto favorecimento empresarial e desvio de recursos, além da manutenção de contratos que somam mais de R$ 8 milhões em 2025 com um único fornecedor de combustíveis, responsável pelo abastecimento da frota municipal desde 2021, com valores progressivamente elevados.

O histórico político do prefeito também pesa no contexto atual. Em 2022, Ferraz teve o mandato cassado por decisão da Justiça Eleitoral sob acusação de abuso de poder econômico, decisão posteriormente suspensa por liminar do TRE-AM.

Somados, os episódios revelam um ambiente de monitoramento constante por órgãos de controle e levantam questionamentos sobre planejamento orçamentário, eficiência do gasto público e mecanismos de transparência. Até o momento, não há decisões definitivas que imputem responsabilidade ao gestor nos processos em curso, mas o conjunto de investigações e contratos de alto valor mantém a administração municipal sob intensa vigilância institucional e política.