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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A era dos Gurus na Prefeitura de Iranduba

Nos corredores climatizados e nos que dependem da boa vontade do vento da Prefeitura de Iranduba, a política ganhou contornos místicos. Além de portarias invisíveis e cargos informais, o município parece ter adotado uma nova estrutura de poder: a era dos Gurus.

Antes de tudo, é preciso conhecer o elenco. Entre cochichos estratégicos e risadas abafadas, desponta um personagem já conhecido dos bastidores. Ele não assina decretos, não aparece no Diário Oficial, mas marca presença constante na rádio-corredor. Oficialmente lotado na Secretaria Municipal de Saúde, circula com liberdade digna de quem tem passe livre espiritual e administrativo.

Sorriso fácil, agenda sempre cheia e companhia constante. Tão constante que, segundo os bastidores, almoçar sozinho virou raridade. Sempre “ajudando”, sempre “dando apoio”, sempre surgindo onde ninguém lembra de ter chamado.

Fontes extraoficiais aquelas que sobrevivem à base de café e ironia afirmam que o personagem mantém relações estreitas com a alta escalação da pasta. Amizades que não precisam de senha, protocolo ou justificativa. Um crachá invisível de “pode entrar” que funciona melhor que qualquer biometria.

Nada disso, claro, existe no papel. Mas como manda a tradição administrativa local, o que não está no sistema está na fofoca. E quando a fofoca se repete, vira apelido; quando vira apelido, nasce o folclore.

O glossário e os Gurus do poder

Para acompanhar a trama, Iranduba desenvolveu um vocabulário próprio. Já “Gud” é aquela figura que aparece “do nada”, se aproxima com intimidade máxima e age como se tivesse livre acesso a tudo e todos. Segundo a mitologia local, o Gud coordena a Atenção Básica de Saúde, o que explicaria sua onipresença e sua capacidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo.

Mas o fenômeno não para por aí. Nos bastidores, comenta-se que Iranduba não tem apenas secretários e assessores. Tem também os Gurus do poder: o Guru do prefeito, declarado por ele próprio, Moisés Lopes, e o Guru da primeira-dama, conhecido como “Gud”. Figuras iluminadas, que exercem influência plena. São consultados, ouvidos e respeitados como verdadeiros oráculos administrativos.

Nada passa sem uma palavra do Guru certo. Decisões fluem, portas se abrem e caminhos se ajustam conforme a orientação espiritual-política do momento. Não está em decreto, mas todo mundo sabe quem são ou pelo menos finge que sabe.

Entre a piada e o alerta

Com tantos Gurus e Guds, o clima nos corredores mistura humor e cautela. Já há servidores sugerindo, em tom de brincadeira ou nem tanto que o prefeito invista em câmeras de segurança. Não apenas para proteger o patrimônio público, mas para monitorar o “perigo invisível” que ronda setores, corações e bastidores do serviço público.

Processos não existem. Sindicâncias também não. Documentos, jamais. Mas como ensina a sabedoria política do interior, quando surgem Gurus, é sinal de que a gestão entrou em fase mística.

Em Iranduba, podem faltar respostas para problemas sérios, pode faltar médico, pode faltar remédio. Mas uma coisa nunca falta: personagem folclórico. E enquanto Gurus e Guds seguem firmes no imaginário popular, a rádio-corredor continua soberana como o meio de comunicação mais eficiente do município.