
Manaus – Apesar das promessas do prefeito David Almeida, equipamentos caríssimos ainda não evitaram alagamentos, perdas materiais e transtornos na capital. Especialistas e moradores criticam falta de transparência e eficácia do sistema.
Em abril de 2025, a Prefeitura de Manaus anunciou com estardalhaço a instalação de nove estações meteorológicas automatizadas como parte de um investimento de R$ 28 milhões para modernizar o monitoramento climático da capital. À época, o prefeito David Almeida classificou o projeto como um “marco tecnológico para a segurança da população”. No entanto, passados mais de 30 dias da entrega da segunda estação, a cidade continua enfrentando os mesmos problemas crônicos: alagamentos, deslizamentos, prejuízos materiais e a total ausência de respostas preventivas por parte do poder público.

Promessa de alta tecnologia, realidade de omissão
As estações meteorológicas prometem medir com precisão dados como temperatura, umidade, índice pluviométrico, pressão atmosférica, entre outros, transmitindo essas informações em tempo real para um centro de monitoramento. A meta seria antecipar eventos extremos e ativar protocolos de emergência, evitando tragédias. Duas das nove estações foram oficialmente entregues: uma na sede da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semulsp), na Compensa, e outra no Distrito Industrial 2.
Vídeo da propaganda da prefeitura de Manaus e a explicação do secretário veja:
Contudo, mesmo com essas inaugurações, Manaus segue sofrendo com o impacto das chuvas. Imagens recentes que circulam nas redes sociais e veículos locais mostram ruas completamente alagadas, casas invadidas pela água e a ausência de atuação preventiva da Defesa Civil. Em entrevista ao Em Tempo, o prefeito alegou que “a cidade está melhor preparada”, mas não apresentou dados técnicos que sustentassem tal afirmação.

População desacredita
“Falaram dessa estação como se fosse a salvação. Mas choveu forte semana passada e aqui no Jorge Teixeira virou um rio. A água invadiu tudo, e ninguém apareceu pra ajudar”, relata a dona de casa Eliane Monteiro, que perdeu móveis e eletrodomésticos no último temporal.
Situação semelhante foi registrada em bairros como Alvorada, Compensa, Redenção e Nova Cidade. Nessas áreas, os moradores relatam que sequer foram avisados com antecedência sobre o risco de chuvas fortes. “Cadê os alertas em tempo real?”, questiona Anderson Silva, autônomo. “Parece que só serviu pra gastar dinheiro.”
Especialistas cobram transparência
Para o engenheiro civil e especialista em infraestrutura urbana Paulo Carvalho, a falha não está necessariamente no equipamento, mas na ausência de integração entre tecnologia e planejamento urbano. “Você pode ter o melhor sensor do mundo, mas se não tiver drenagem urbana eficiente, equipes preparadas e comunicação com a população, não adianta nada. O problema de Manaus é estrutural”, explica.
Além disso, o valor da licitação e a escolha das empresas responsáveis também levantam suspeitas. “R$ 28 milhões é um valor elevado para a aquisição de nove estações. É preciso verificar a especificação técnica dos equipamentos, os contratos, e principalmente se está havendo a devida manutenção e uso dos dados gerados”, acrescenta Carvalho.
Contratos e ausência de resultados
De acordo com o Portal da Transparência da Prefeitura de Manaus, os contratos firmados com empresas de tecnologia climática incluem não apenas a instalação das estações, mas também software de gerenciamento, manutenção e capacitação de pessoal. Entretanto, até o momento, não foram publicados relatórios técnicos que demonstrem o funcionamento pleno do sistema ou os dados gerados por ele.
A reportagem solicitou via e-SIC os documentos relacionados à execução do contrato, mas até o fechamento desta matéria não obteve retorno da prefeitura.
Desconfiança crescente
A aposta milionária em tecnologia que não entregou resultados tangíveis reacende o debate sobre as prioridades da gestão David Almeida. Para a vereadora Natália Dias (nome fictício para ilustração), trata-se de mais uma promessa que ficou no marketing. “O prefeito inaugura, filma, posta nas redes, mas quando a chuva cai, o povo sofre do mesmo jeito. Precisamos abrir uma CPI para investigar esse contrato.”
Enquanto isso, os manauaras continuam enfrentando sozinhos os efeitos das chuvas. E a estação meteorológica que deveria proteger vidas permanece, até agora, como mais um símbolo da ineficiência e do desperdício de dinheiro público.


