
O atual prefeito de Manaus, Renato Júnior (Avante), enfrenta um cenário de forte desgaste institucional após a revelação de que foi alvo de 49 procedimentos de investigação nos últimos doze meses. Os dados constam em registros oficiais do Ministério Público do Amazonas (MP-AM) e do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM), e têm como foco principal sua atuação à frente da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf), considerada uma das pastas mais estratégicas da prefeitura.
Com orçamento previsto de R$ 881 milhões para 2025, a Seminf concentra grandes contratos e obras públicas justamente o epicentro das denúncias e apurações que cercam a gestão de Renato Júnior, que comandou a secretaria entre abril de 2022 e junho de 2024, retornando ao cargo após as eleições.
Salto patrimonial levanta questionamentos
Outro ponto que chama atenção é a evolução patrimonial do prefeito. Em 2018, Renato Júnior declarou possuir R$ 30 mil em bens. Seis anos depois, o valor declarado saltou para R$ 3,1 milhões um crescimento de aproximadamente 10.000%, o que levanta questionamentos sobre a origem dos recursos.
Paralelamente, surgem vínculos familiares com contratos públicos. A empresa Total Mix Obra de Urbanização, que tem como sócios sua esposa, Symonne Araújo Gomes, e seu primo, Matheus Carneiro Aragão Frota, firmou contratos superiores a R$ 4,8 milhões com a prefeitura de Autazes nos últimos três anos.
Investigações do MP-AM atingem obras, contratos e cifras milionárias
Desde abril de 2024, o MP-AM instaurou 21 procedimentos envolvendo diretamente a Seminf. Entre os principais alvos estão obras de grande visibilidade e impacto urbano.
A intervenção na avenida Ephigênio Salles é investigada por possível descumprimento de normas ambientais. Já a pintura das pedras portuguesas na ciclovia da Ponta Negra levanta suspeitas de dano ao erário.
Outras apurações envolvem supressão de áreas verdes, como a retirada de mata ciliar no bairro Novo Aleixo, além do descarte irregular de resíduos na avenida Dublin, no Planalto. Contratos também estão sob análise, incluindo acordos com o Consórcio de Empresas Mindu e a contratação sem licitação da GSD Serviços de Construções Ltda.
Além das irregularidades administrativas e ambientais, parte das investigações envolve valores expressivos de recursos públicos. Levantamento com base em contratos e operações sob análise aponta que pelo menos R$ 314,3 milhões estão diretamente relacionados a apurações em curso. Entre os principais casos estão:
* cerca de R$ 119,1 milhões em contrato de dragagem no rio Tarumã-Açu;
* aproximadamente R$ 131,2 milhões investigados em movimentações financeiras suspeitas;
* ao menos R$ 58 milhões em obra viária sob análise;
* e cerca de R$ 6 milhões ligados a operações consideradas simuladas.
Especialistas apontam que esse valor é conservador, já que diversas investigações não ունեն divulgação pública de cifras, o que pode elevar significativamente o montante total sob suspeita.
Problemas estruturais e pressão popular
A atuação da Seminf também é alvo de críticas recorrentes da população. Reclamações sobre falhas na pavimentação e abandono de obras atingem bairros como Terra Nova, Coroado III, Cidade de Deus e Cidade Nova.
Intervenções específicas, como a pavimentação da Rua João Câmara e alterações viárias na avenida Professor Nilton Lins, também estão sendo monitoradas por órgãos de controle.
TCE-AM identifica falhas e amplia fiscalização
O TCE-AM mantém acompanhamento contínuo da gestão. Embora as contas de 2023 tenham sido aprovadas com ressalvas, o órgão apontou inconsistências administrativas, como falhas no recolhimento ao INSS e questionamentos sobre acúmulo de cargos.
Entre os contratos sob suspeita estão a dragagem do rio Tarumã-Açu, executada por dispensa de licitação, e o uso do Regime Diferenciado de Contratação (RDC) na obra da Bola do Produtor.
Além disso, medidas cautelares propostas por vereadores tentaram barrar processos licitatórios considerados irregulares.
O tribunal também intensificou a fiscalização direta, com designação de servidores para acompanhar obras como o Complexo Viário do Manôa, o programa Asfalta Manaus e intervenções estruturais como o Parque Encontro das Águas e a desobstrução do igarapé do São Raimundo.
Cenário de incerteza política
Com dezenas de investigações em curso e cifras que já ultrapassam a casa das centenas de milhões de reais, Renato Júnior permanece sob forte escrutínio. O avanço dessas apurações pode não apenas comprometer sua permanência à frente da da prefeitura, como também impactar diretamente sua trajetória política dentro da administração municipal.
O volume e a gravidade dos questionamentos colocam a gestão no centro de uma crise que tende a se intensificar à medida que os órgãos de controle aprofundam suas análises.


