
Em pleno 2025, a população de Manacapuru enfrenta uma situação que envergonha qualquer administração pública responsável: água suja, escura e com mau cheiro saindo diretamente das torneiras das residências. Em diversos bairros, o que deveria ser sinônimo de saúde e dignidade se transformou em fonte de medo e revolta. Moradores enviaram vídeos e imagens à reportagem mostrando a água com coloração marrom, aparência de lama e resíduos visíveis em baldes, garrafas e torneiras, revelando que o líquido fornecido pelo sistema público não apresenta condições mínimas para consumo humano.
Em um dos vídeos que circulam nas redes sociais, uma moradora expõe a indignação coletiva ao perguntar: “Imagina tomar banho nessa água? Fazer comida com isso? Dar essa água para criança beber?”. A cena mostra a água escorrendo suja e turva, revelando o grau de abandono e descaso enfrentado diariamente por quem depende exclusivamente do abastecimento municipal.
A rotina das famílias virou uma sucessão de sacrifícios. Roupas mancham ao serem lavadas, caixas-d’água ficam sujas em poucas horas, filtros entopem frequentemente e a desconfiança toma conta até nos gestos mais simples como escovar os dentes ou lavar alimentos. Há relatos de moradores que evitam usar a água para banho em crianças pequenas e idosos com medo de infecções e irritações na pele. O sentimento predominante é de insegurança permanente e abandono total por parte do poder público.
Enquanto o povo convive com água imprópria, a prefeita Valciléia segue em silêncio. Até o momento, não houve anúncio de medidas emergenciais, nem apresentação de um plano técnico para resolver o problema. Nenhuma coletiva foi convocada, nenhuma nota clara foi divulgada, nenhum cronograma foi apresentado. O que existe é a omissão institucional diante de uma crise que envolve diretamente a saúde da população.
O Serviço Autônomo de Água e Esgoto, o SAAE, responsável direto pela distribuição, também não apresenta respostas satisfatórias. Não há divulgação regular de laudos, não se sabe quando foi realizada a última análise de potabilidade, nem quais medidas estão sendo adotadas para corrigir o problema. A falta de transparência aumentou a desconfiança dos moradores, que se perguntam se os reservatórios estão sendo limpos, se as tubulações estão comprometidas, se existe contaminação nos poços ou se o sistema de tratamento simplesmente deixou de funcionar.
Apesar disso, a conta de água chega religiosamente todo mês. O cidadão paga por um serviço que não recebe de forma digna. A indignação cresce porque a tarifa continua sendo cobrada como se o fornecimento fosse regular, quando a realidade mostra um quadro de degradação total. A pergunta que ecoa nos bairros é simples e direta: onde está sendo aplicado o dinheiro da água que não chega limpa?



O problema, que poderia ser técnico, já se tornou uma crise de saúde pública. Água com turbidez elevada pode conter microrganismos, resíduos químicos e materiais orgânicos responsáveis por doenças como diarreia, hepatite A e infecções intestinais, além de agravar problemas dermatológicos e respiratórios. Especialistas alertam que crianças, idosos e gestantes são os mais afetados e urgem por medidas imediatas.
Diante da gravidade da situação, moradores pedem a intervenção dos órgãos de controle para investigar o que estaria acontecendo nos bastidores do sistema de abastecimento de água. A população cobra ação do Ministério Público do Amazonas, do Tribunal de Contas do Estado, da Vigilância Sanitária e da Defensoria Pública, exigindo auditoria, coleta independente de amostras, análise técnica e responsabilização dos gestores.
Manacapuru não pede favor. Exige respeito. Água limpa não é luxo, não é promessa de campanha e não é obra para foto. Água limpa é direito básico. Enquanto a gestão municipal segue em silêncio e o SAAE se esconde atrás da falta de explicações, milhares de pessoas continuam sendo obrigadas a consumir sujeira como se fosse normal. A cidade segue adoecendo lentamente e a administração pública tratando o sofrimento com indiferença.
A pergunta que fecha a denúncia continua ecoando das torneiras para as ruas: até quando Manacapuru vai ser obrigada a beber descaso?


